o espetáculo n traz à cena um manifesto artístico capaz de promover o encontro alquímico entre música, cinema, literatura, fotografia e teatro. o álbum é um acontecimento, uma passagem, um desvio, uma fresta por algum portal no tempo. mesmo diante da dificuldade de produções culturais em composições originais, o ep de música instrumental experimental surge como um feitiço artístico inédito nos tempos atuais, pois é um atravessamento pela espiral do tempo.
o álbum é um convite à dilatação do tempo.
aqui, portanto, é o começo do manifesto.
você está com tempo?
na idade média, saturno, deus do tempo, era representado como um idoso carregando uma espécie de foice e uma ampulheta. guardados os devidos deslocamentos, este manifesto quer se utilizar dessa lenta caminhada contra o tempo, de modo a diminuir a velocidade do destino. mas para que fique claro, o manifesto deseja verdadeiramente atrasar o tempo das horas. quer correr lentamente, quer aniquilar qualquer urgência. é como conservar a vida a qualquer custo, sabendo que a chegada da morte é certa.
a vida nunca foi tão transitória como hoje em dia.
não há nada que prometa duração.
não há nada que prometa persistência.
por isso, este manifesto tem as letras atiradas contra uma tela. há um instinto místico das palavras em formarem quilombos e criarem uma nova gramática, capaz de sobreviver à ação cronológica do deus romano. talvez o interesse principal esteja em combater a hiperatividade e a aceleração do processo de vida, unindo vários artistas em prol da execução dos objetivos pela finalidade de divulgar uma obra, que anseia ao fim, ao vazio, ao nada, pois é arte.
o manifesto convida aquele que entra em contato com as músicas e os vídeos a se ausentar, mesmo que seja por pouco tempo. quer citar freud, kafka e byung-chul han, mas quem são eles perto de um orixá, que mata um pássaro hoje com a pedra que atirou ontem. tem-se por tentativa essa capacidade de atravessar o tempo, onde tudo tem um fim e recomeço.
o manifesto tem as cores do aço da foice de saturno, que ora ara a terra, ora corta o fio, ora gira a ampulheta, ora cria uma pausa. um promotor do fim, ora pois. as seis faixas originais contidas neste ato são enfeitiçadas pelo artista multi instrumentista joão minatti, que aludiu suas inspirações em encruzilhadas sociais amargadas pelo frenesì do mundo virtual somado ao cansaço frente à exposição massiva de estímulos às experiências individualizantes. ao oferecê-las aos ouvintes do seu tempo como uma criação sinestésica, minatti aponta para esse trânsito cíclico, onde a experiência artística induz a capacidade humana de criar ritos de passagem, canais de acessos e contato com o sensível. o manifesto se entende como mais uma maneira de fabricar fendas nas estruturas dos minutos.
os clipes são registros cinematográficos capturados com câmera analógica, através de lentes especiais, que adicionam texturas significativas e deslumbrantes, além da estilização dos signos. são imagens gravadas entre florianópolis e brusque, perímetro de atuação da equipe do projeto. o espaço comporta os oito músicos, onde ao centro um telão aguarda a projeção dos vídeos. tais artistas só fazem olhar a entrada de todos os espectadores, antes de iniciarem. ali, os corpos dos músicos e dos instrumentos ensaiam à espera, o atraso, o descompasso da formalidade com a passagem dos espectadores em frente ao tablado. paradoxalmente, suas presenças comunicam o indizível e a inexorável ação do tempo. é desejo de atravessar o verbo, onde tudo tem um fim
e recomeço.
é possível dizer que o espetáculo, portanto, usa dos elementos da videoarte, das fotografias e dos grafismos, da dramaturgia e da música para operar dentro da perspectiva da passagem ordinária do tempo de uma hora de duração. o manifesto, compreendido no álbum n, promove a união de linguagens, com o intuito de suspender o tempo do encontro para que tenha um fim
e recomeço.
autor: everton girardi